Como investir em ações: guia para iniciantes
Aprenda o que é uma ação, como funciona a B3, o que observar antes de comprar, como chegam os dividendos e quais erros de iniciante evitar na bolsa.
Investir em ações é comprar uma fração de uma empresa de capital aberto por meio de uma corretora, na bolsa brasileira (B3). Para começar com segurança, você precisa de quatro coisas: reserva de emergência pronta, conta em uma corretora autorizada, um valor que possa ficar investido por anos e um método simples para avaliar empresas. Se a reserva de emergência ainda não existe, comece por ela; a conta na corretora pode esperar.
O que é uma ação
Uma ação é a menor parcela do capital de uma empresa organizada como sociedade anônima. Ao comprar uma ação, você se torna sócio: tem direito a uma fatia do lucro que a empresa decide distribuir e, em alguns casos, a voto nas assembleias. Se a empresa cresce e lucra mais, a tendência é que suas ações valham mais; se vai mal, o contrário.
No Brasil, as ações aparecem em dois tipos principais:
- Ordinárias (ON): dão direito a voto nas assembleias.
- Preferenciais (PN): em geral não dão voto, mas têm prioridade no recebimento de dividendos e, em alguns casos, dividendo mínimo.
Algumas empresas negociam units, que são pacotes com ações ordinárias e preferenciais juntas. Para quem está começando, a diferença entre ON e PN pesa menos do que a qualidade da empresa em si.
Uma empresa de capital aberto é obrigada a publicar balanços, demonstrações de resultado e fatos relevantes. Essa transparência é fiscalizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e os documentos ficam disponíveis no site da CVM e na área de relações com investidores (RI) de cada empresa.
Como funciona a B3 e o papel da corretora
A B3 é a bolsa de valores brasileira, onde as ações das empresas listadas são negociadas. Você não compra direto da B3: precisa de uma corretora ou de um banco com corretora, instituições autorizadas pela CVM e pelo Banco Central a intermediar as operações. É possível conferir se a instituição é autorizada nos sites desses dois órgãos.
Depois de abrir a conta e transferir o dinheiro, você acessa o home broker, que é a plataforma de negociação da corretora. Lá, você escolhe a empresa, informa a quantidade de ações e o preço que aceita pagar, e envia a ordem. Quando há um vendedor disposto a aceitar aquele preço, o negócio é fechado. As ações ficam registradas em seu nome na central depositária da B3, não no caixa da corretora.
Dois detalhes práticos:
- Lote padrão e mercado fracionário: as ações são negociadas em lotes de 100 no mercado principal. Quem quer comprar menos usa o mercado fracionário, que permite comprar a partir de uma ação. O código do ativo recebe a letra F no final nesse mercado.
- Horário: a bolsa tem pregão em horário definido pela B3, em dias úteis. Ordens enviadas fora dele ficam aguardando a abertura.
O passo a passo para abrir conta, transferir dinheiro e organizar os primeiros aportes está em como começar a investir.
Quanto custa investir em ações
Os custos variam entre corretoras, por isso a comparação precisa ser feita antes de abrir a conta. Os principais:
- Corretagem: tarifa que a corretora cobra por ordem executada. Muitas instituições não cobram para ações, outras cobram valor fixo ou percentual. Confira a tabela da sua.
- Emolumentos e taxas da B3: percentuais pequenos sobre o valor negociado, cobrados em toda operação. Os valores vigentes estão no site da B3.
- Custódia: tarifa pela guarda das ações. Em várias corretoras é zero para pessoa física, mas não em todas.
- Imposto de renda: incide sobre o lucro obtido na venda, com regras próprias.
Em um exemplo simples, imagine uma compra de R$ 1.000 em ações com corretagem zero e emolumentos hipotéticos de 0,03%. O custo seria de R$ 0,30. Parece pouco, e é, desde que você não fique comprando e vendendo toda semana: muitas operações multiplicam os custos e o imposto.
Imposto de renda nas vendas
O lucro na venda de ações é tributado, e quem apura e paga é o próprio investidor, não a corretora. A regra geral tem três partes:
- Existe uma isenção para quem vende, no total do mês, um valor pequeno de ações no mercado à vista. O limite vigente está no site da Receita Federal.
- Acima disso, o lucro do mês é tributado por uma alíquota definida em lei, e o pagamento é feito por DARF até o prazo fixado pela Receita.
- Prejuízos registrados podem ser compensados com lucros de meses seguintes.
A corretora retém um valor simbólico na fonte em cada venda (apelidado de "dedo-duro") que serve para a Receita cruzar informações. Ele não substitui o DARF. No ano seguinte, as ações entram na declaração como bens, e os lucros, proventos e DARFs pagos são informados em fichas próprias. O artigo sobre imposto de renda em investimentos detalha o preenchimento.
Análise básica: negócio, lucro e dívida
Você não precisa ser analista para avaliar uma empresa, mas precisa responder a algumas perguntas antes de comprar. Um roteiro inicial:
- Como a empresa ganha dinheiro? Se você não consegue explicar em duas frases o que ela vende e para quem, ainda não a entende.
- Ela dá lucro com regularidade? Olhe o resultado dos últimos anos, não só do último trimestre. Empresas com lucro consistente tendem a atravessar crises melhor.
- Quanto ela deve? Dívida alta em relação ao que a empresa gera de caixa é sinal de alerta, principalmente quando os juros sobem. Os balanços mostram a dívida bruta, o caixa e a dívida líquida.
- O setor tem futuro? Produtos que estão sendo substituídos ou setores muito dependentes de uma única regra do governo merecem cautela extra.
- Como é a governança? Empresas listadas em segmentos com exigências maiores de transparência, como o Novo Mercado da B3, aceitam regras mais rígidas de proteção ao acionista minoritário.
Esses dados estão nos relatórios trimestrais (ITR), no formulário de referência e nas apresentações de resultados, todos públicos. Evite decidir por manchete, por "dica" em rede social ou porque o preço "caiu muito". Preço baixo não quer dizer barato: às vezes a ação caiu porque o negócio piorou.
Dividendos e juros sobre capital próprio
Quando a empresa tem lucro, parte dele pode ser distribuída aos acionistas. As formas mais comuns são os dividendos e os juros sobre capital próprio (JCP). Os dois chegam direto na sua conta da corretora, na data definida pela empresa, na proporção das ações que você tinha na data de corte.
A tributação de dividendos e de JCP segue regras próprias e passou por mudanças recentes na legislação, com condições que dependem do valor recebido. Consulte a Receita Federal para a regra vigente e não assuma que todo valor recebido é livre de imposto.
Em um exemplo simples, imagine que você comprou 10 ações a R$ 20 cada, num total de R$ 200. Ao longo do ano, a empresa distribuiu R$ 1 por ação. Você recebeu R$ 10, o equivalente a 5% do valor investido.
Agora olhe o preço. Se a ação subiu para R$ 24, suas ações valem R$ 240, e o ganho total no período seria de R$ 40 na cotação mais R$ 10 em proventos, ou R$ 50 sobre R$ 200. Se o preço caiu para R$ 15, as ações valem R$ 150: prejuízo de R$ 50, apenas parcialmente compensado pelos R$ 10 recebidos. Os números são hipotéticos e mostram que dividendos e preço precisam ser olhados juntos.
Empresas com histórico de distribuição não são obrigadas a manter o mesmo valor. O dividendo depende do lucro, da necessidade de reinvestimento e da decisão da administração.
Risco, horizonte e o dinheiro que não pode entrar
Ação é renda variável: não tem rendimento combinado, não tem garantia do FGC e o preço oscila todos os dias, às vezes muito. Empresas podem perder valor por anos ou até falir, e nesse caso o acionista é o último a receber alguma coisa.
Por isso, duas regras não negociáveis:
- Nunca invista em ações o dinheiro da reserva de emergência nem o que tem data para ser usado (aluguel, escola, parcela do carro). Se a bolsa cair no mês em que você precisar, será obrigado a vender no pior momento.
- Pense em anos, não em semanas. Quem compra uma empresa para carregá-la por longo prazo consegue atravessar as oscilações; quem tenta adivinhar o movimento das próximas semanas costuma comprar na alta e vender na baixa.
A forma mais simples de reduzir o risco de uma empresa específica é não concentrar. Dividir entre empresas de setores diferentes, e combinar ações com outras classes, é o assunto de diversificação de carteira. Para quem prefere comprar uma cesta inteira de empresas de uma vez, existem os ETFs, que seguem um índice como o Ibovespa.
Erros de quem está começando
- Comprar por indicação de desconhecido, sem olhar a empresa.
- Colocar tudo em uma única ação ou em um único setor.
- Confundir preço baixo com empresa barata.
- Vender em pânico na primeira queda forte e comprar de volta quando o preço já subiu.
- Investir dinheiro com data marcada para uso.
- Operar demais, acumulando custos e imposto.
- Ignorar a declaração de imposto de renda e descobrir pendências anos depois.
Investir em ações não é corrida. Começar com valores pequenos, estudar as empresas que você já conhece como consumidor e manter aportes regulares é um caminho mais consistente do que buscar o próximo grande acerto. Este conteúdo é educativo e não é recomendação de compra de nenhuma ação.
Próximos passos
- Confirme que sua reserva de emergência está completa e que as dívidas caras foram quitadas.
- Verifique nos sites da CVM e do Banco Central se a corretora que você pretende usar é autorizada, e compare a tabela de custos de duas ou três.
- Escolha uma empresa que você conhece como cliente e leia a última apresentação de resultados na área de RI, só para praticar.
- Defina um valor mensal pequeno que pode ficar investido por pelo menos cinco anos.
- Anote cada compra (data, quantidade, preço e custos) em uma planilha: isso vai facilitar o imposto de renda e a leitura dos seus resultados.
Perguntas frequentes
Quanto preciso para começar a investir em ações?
Investir em ações é seguro?
Preciso pagar imposto de renda sobre ações?
Qual a diferença entre ação ordinária e preferencial?
Fontes e referências
Indicadores de hoje
Ver no Banco CentralNão foi possível carregar os indicadores agora. Consulte no site do Banco Central.
Fonte: Banco Central do Brasil (série temporal SGS), consultado ao abrir a página.
Leia também
Mais guias de Investimentos e de outros temas.
Imposto de renda sobre investimentos: o que o iniciante precisa saber
Entenda como o imposto de renda incide sobre renda fixa, ações, fundos imobiliários e fundos de investimento, o que é isento e como declarar tudo na DIRPF.
Tesouro Selic ou poupança: comparação honesta
Compare Tesouro Selic e poupança em rendimento, liquidez, risco, imposto e praticidade, com a regra de cada um explicada e um exemplo com números hipotéticos.
Regra 50/30/20: como dividir o salário sem complicação
Entenda a regra 50/30/20, veja a conta com dois salários hipotéticos e saiba como adaptar a divisão quando a renda é baixa ou as dívidas pesam no orçamento.